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Moana: Um Mar de Aventuras (2016), de Ron Clements, Don Hall, John Musker e Chris Williams

15/02/2017

Dentro do “monomito”, conceito narrativo composto pelo antropólogo Joseph Campbell, todo herói parte em uma busca. Nessa procura, ele acaba encontrando a si. A pergunta-chave nessa “jornada do herói” é, portanto, “quem sou eu?”. É essa a base narrativa de algumas das histórias mais famosas do cinema e, notadamente, o alicerce da grande maioria das animações da Disney – desde o shakespeareano “Rei Leão” (1994) até o protofeminista “Mulan” (1998). “Moana: Um Mar de Aventuras”, de Ron Clements, Don Hall, John Musker e Chris Williams também tem essa base. A protagonista, um “escolhido”, tem uma busca, se perde, se reencontra, supera percalços e lutos para descobrir quem é. A novidade é que o questionamento sobre onde Moana está é tão forte quanto sobre quem ela pode ser.

 

“Onde Moana está?” admite duas respostas. A primeira, mais óbvia, é na antiguidade da Polinésia Francesa. Existem deuses comandando o destino de dezenas (centenas?) de ilhas, danças tradicionais da Oceania e mesmo um tom de pele incomum para uma megaprodução da Disney. Houve um deslocamento do eurocentrismo, visto mais recentemente na Suécia pintada em “Frozen” (2013), para um grupo étnico diverso. A trama segue a mitologia própria polinésia, quando acompanha a jovem Moana que ousa sair de seu arquipélago seguro para tentar salvar o mundo de uma antiga maldição que nasce da irresponsabilidade de Maiu – transmorfo, semideus da água e do ar e herói de todos.

 

A outra resposta para “Onde está Moana?” é mais complexa, ainda que clara. Diferentemente do lugar físico, existe um lugar simbólico que a nova princesa Disney ocupa. Lembremos da trajetória da primeira de todas, a protagonista de “Branca de Neve e os Sete Anões” (1937). Pura, bela, ingênua, inofensiva: uma donzela em perigo. Ela é salva por um príncipe, um homem, cuja relevância para a história é mínima, mas que ainda assim pôde se impor. Naqueles tempos, as coisas só eram vista sob este prisma. Hoje, no entanto, uma princesa Disney pode ser mais tenente Ripley, mais heroína de ação.

 

Se a gente parar para pensar, Moana poderia ser um personagem masculino. Sucessor do chefe de uma vila, sem interesse romântico, destemido, obstinado. Seria mais um de tantos. Mas as moças, no cinema, parecem sempre necessitar da validação masculina. Mesmo a genial, insuperável Mulan tem a muleta de um par romântico (o capitão Li Shang) – daí eu ter chamado de “protofeminismo”. As duas têm ainda a semelhança de serem de minorias étnicas e de serem heroínas de fato. Moana é um novo degrau. Ela não prescinde de nenhum homem humano. Suas únicas ajudas são divinas (Maiu) e animal (Heihei).

 

O lugar onde Moana está, portanto, é o do ativismo. Curioso o caminho das animações Disney, outrora comandadas por um gênio que, infelizmente, tinha sérios traços de racismo e misoginia (além de anticomunismo e antissemitismo). Hoje, o estúdio se mostra talvez o mais progressista do cinema hollywoodiano. Quiçá seja só oportunismo capitalista, mas sejamos otimistas.

 

Voltando ao longa, “Moana: Um Mar de Aventuras” é previsível como toda jornada do herói (heroína). Ainda assim, mesmo que os dilemas sejam antecipados, a emoção parece genuína. Por mais formulaica que seja a fórmula de humor+ação+músicas, Moana merece carinho. Pode não reinventar a roda, mas, repito, é um novo degrau na escada mais importante da discussão social na arte atualmente.

 

A discussão toda é sobre destino, sobre o que o “escolhido” pode fazer. Maiu pode ser o destaque. Ele tem força, carisma, graça. Mas a gente sempre sabe que quem vai salvar o dia será Moana. Ela se sustenta só. Assim como quem via “Star Wars” (1977) pela primeira vez podia amar Han Solo, no entanto, esperava pelo momento em que Luke vai se impor ao seu destino. Ainda que ela negue o título, torço que Moana vire molde para toda “princesa” que surja hoje – tanto as da Disney, quanto as do mundo real.

 

Publicado pelo autor no blog Cinema às 8 / O Povo Online.

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