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Jackie (2016), de Pablo Larraín

06/02/2017

Mexer com particularidades de grandes acontecimentos é sempre uma tarefa muito sensível. Principalmente por ter que preencher muitas lacunas que permanecem em branco. E se contar já é difícil, quiçá recriar como um objeto de emoção. Assim foi com o frágil "A Dama de Ferro", de Phyllida Lloyd, que trouxe uma Margaret Thatcher idosa em conflito com o passado; ou até mesmo "Steve Jobs", do competente Danny Boyle, que dignifica e aflige uma figura tão popularmente conhecida pela genialidade. Em "Jackie", a mexida traz mais atenção por (duvidosamente) tocar na identidade estadunidense de forma direta. Natalie Portman vive Jacqueline Kennedy, viúva do ex-presidente John F. Kennedy, assassinado em 1963. O projeto tinha tudo para se tornar mais uma biografia corriqueira, mas um item distancia o filme disso: o diretor chileno Pablo Larraín.

 

"Jackie" é uma história que tem como principal apetrecho narrativo o seu formato. Fugindo de abordagens convencionais, o filme esquece a linearidade e transita entre quatro momentos específicos. A costura dessas histórias tem critérios muito mais sensíveis que uma simples necessidade de preenchimento. Larraín é engenhoso ao não só remontar imagens do passado (todas originárias de mídias) como também por incorporar essa estética a realidade que recria. O filme, portanto, é uma "bagunça" de tons; ora se assume realista, ora documental, ora algo entre os dois. Essa decisão por particionar a história de modo visual, inclusive, lembra muito seu último trabalho "Neruda". Mas, se nesse as distinções soam grosseiras e claustrofóbicas, em "Jackie", porém, o uso é sempre instigante. Uma estética muito exposta que faz com que a imersão seja constantemente alternada e o filme nunca deixa uma folga que incite o desprendimento. 

 

Aliás, essa conexão tem uma relação direta com sua ambição escancarada de se afirmar. O interesse em determinar Jackie como protagonista indiscutível é traduzido em planos sempre tão próximos que parece capaz de registrar para além dos suspiros. Isso dignifica ainda mais o trabalho desconcertante de Natalie Portman, que concretiza com veemência "suas personagens" que, apesar do pouco tempo, estão em condições emocionais muito distintas. E seu tamanho na obra é tão grandioso que até J. Kennedy é reduzido à meias-faces e pequenas e distantes aparições. 

 

Mas o que mais chama atenção é a razão de sua realização. Ter um chileno que acabou de filmar a fuga de um poeta comunista na direção de "Jackie" é um fato imensamente curioso. Primeiro porque de "No", "O Clube" e "Neruda", o projeto nada se assemelha em essência. Pablo Larraín é um observador instigado e encontra nesse drama interno uma abordagem não-convencional de um fato psicológico que poderia ser do mesmo. Ouvi que o filme tem uma montagem bagunçada que se complica pela não-linearidade. Mas, apesar de tentar muito, não consigo ver "Jackie" como uma biografia linear de maior alcance histórico. O que a obra tem de mais poderoso é esse caráter episódico e a consequente imagem inconstante - vista de modo igualmente errático - de uma personagem que nunca parece completa. 

 

A presença de Larraín no projeto é ainda mais ousada ao não se ater a qualquer heroísmo; nem na superfície e sequer nos subtextos. Kennedy não é dignificado; em duas sequências é até martirizado pelos próprios "parceiros de cena". Sua morte é apenas um gancho narrativo e grandioso pelo símbolo. Nem a própria Jackie sai ilesa, porque, apesar de não ter qualquer apontamento direto, suas camadas permitem o questionamento. Larraín olha para isso sem causar qualquer interferência lesiva e consegue emocionar com um luto que nunca se escracha, uma dor que pulsa. Inclusive, a trilha contida flerta com um clima macabro que só engrandece a estranheza de "uma história comum".

 

Ao sair perplexo da sessão de "O Clube" em 2015, eu jamais diria que essa soma aconteceria (apesar de já ter sido anunciado meses antes): Pablo Larraín + EUA + Natalie Portman. Também não apostaria que seria um grande filme. A aposta da vez é se essa estreia estadunidense pode render a Larraín outros bons frutos conterrâneos. Mas, por ora, não há como saber se "Jackie" foi só uma aventura brilhantemente efêmera.

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