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NOIA 2016 | Novas ideias para a sétima arte

03/01/2017

Chegou ao fim no último dia 27 de novembro a 15° edição do NOIA - Festival de Audiovisual Universitário. Entre mostras competitivas e não competitivas de fotografia, bandas e filmes cearenses e brasileiros, fui convidado pela Associação Cearense de Críticos de Cinema (Aceccine) a ser um dos três representantes da entidade - juntamente com os colegas Thiago Siqueira e George Pedrosa - para o júri da crítica, que premiaria, segundo critérios próprios, o melhor filme da Mostra Competitiva de Curtas Brasileiros.
 
Embora já tivesse frequentado mostras e festivais em outras oportunidades, essa foi a minha primeira vez como um crítico que carrega grande responsabilidade ao não apenas julgar as obras vistas, mas também “ranqueá-las” em ordem de qualidade, algo sempre difícil e relativamente subjetivo, e premiar apenas uma, decidida em debate com os outros dois colegas de Aceccine.
 
A tarefa se torna mais difícil ainda quando dos 18 filmes participantes da competição, pelo menos metade possui nível o suficiente para almejar um espaço na disputa pelo primeiro lugar. Se eu fosse me estender aqui falando de todos eles, é possível que este texto virasse quase um livro, então decidi me ater a apenas cinco, que considero não apenas meus preferidos, mas também importantes em termos de linguagem cinematográfica e novas ideias para a sétima arte, algo valioso quando se trata de universitários começando sua empreitada na área. Um breve comentário sobre eles a seguir.
 
"Desventuras de um Proletariado" (Coletivo Filma Que Vai Cair, 10’): procurando fazer humor por meio da brincadeira com a linguagem cinematográfica, o curta é uma grande homenagem aos primórdios do cinema mudo, com seus intertítulos, atuações expressivas e trama relativamente simples. É um tipo de comédia que me agrada, com um sarcasmo fino e uma ironia sutil, chegando até a bagunçar sua própria proposta em ser um filme em preto e branco quando resolve colorir determinada cena para ilustrar os sentimentos lúdicos do protagonista, no melhor estilo "O Mágico de Oz" (1939). Divertidíssimo.
 
"Enzo" (de Daniel Sena, 17’): aqui temos uma obra extremamente visceral, que acompanha as consequências que a morte da mãe do personagem-título tem sobre ele, com seu irmão mais velho tendo que segurar todo o rojão basicamente sozinho. Com uma fotografia que realça os distúrbios de Enzo, Sena é competente em conduzir o espectador para sentir a dor do protagonista junto com ele, sempre com planos elegantes e significativos para tal. O clímax do filme e seu desfecho, em especial, são dignos de um cineasta de grande competência e que sabe o que está fazendo, utilizando a mise-en-scène para estabelecer o que é ou não real, mas deixando uma ponta de dúvida na última tomada que torna a obra impossível de ser esquecida imediatamente após subirem os créditos finais.
 
"Janaína Overdrive" (de Mozart Freire, 19’11’’): provavelmente, o filme mais surpreendente desta 15° edição do NOIA. Uma ficção científica raiz, que faz de seu universo e suas regras um personagem à parte e que exerce influência não só na história, mas principalmente em seu protagonista, a transciborgue Janaína, que quer fugir do controle do sistema. De cara, o que chama mais atenção é mesmo sua proposta: uma prostituta trans meio robô e meio humana querendo sobreviver em um mundo “pós apocalíptico” cruel controlado por uma corporação. Uma distopia ciberpunk plena, que desperta inúmeras discussões e reflexões apenas por sua ideia inicial, podendo ser relacionada com o mundo em que vivemos de diversas maneiras. A fotografia suja e escura lembra muito a de clássicos como "Blade Runner" (1982), sendo utilizada não apenas como um elemento narrativo interessante, mas também como uma saída bem sacada para esconder a evidente e compreensível falta de recurso dos realizadores, algo inteligente e elegante. Apesar da trama simples, afinal seria complicado rebuscar o enredo em tão pouco tempo quando já se tem tantos elementos (narrativos e subjetivos) captando a atenção do espectador, as camadas e subcamadas deste Janaína Overdrive, bem como a coragem e competência em por em prática as ideias propostas, o tornam simplesmente instigante.
 
"A Rua das Casas Surdas" (de Gabriel Mayer e Flávio Costa, 8’): o escolhido por nós da Aceccine como o grande vencedor do Festival. As palavras divulgadas pela entidade na cerimônia de entrega dos prêmios já dizem bastante e representam bem a opinião minha e dos outros dois colegas jurados, mas aqui vai mais um pouquinho da minha impressão pessoal: a questão dos simbolismos. Gosto particularmente como a dupla de realizadores constrói o retrato das figuras desprezíveis apresentadas a partir de metáforas e imagens, pouco por meio dos diálogos. Aliás, estes estão mais presentes para, contrastados com as imagens, criar uma atmosfera cínica e irônica que mostra o quão os envolvidos podem ser perigosos – o que de fato se confirma no final do filme. Na cena inicial, por exemplo, vemos dois homens conversando sobre amenidades enquanto ouvem um jogo de futebol na rádio, até que um deles apaga seu cigarro em uma barata. Algo relativamente sutil, mas que já prepara o terreno para o que veremos em seguida. Paralelamente a isso, os diálogos (muito bem escritos) servem mais para compor a narrativa, do que para explicar enfadonhamente alguma coisa ou demonstrar a personalidade dos envolvidos. Uma lição básica da sétima arte, e que aqui parece ter sido compreendida perfeitamente por Mayer e Costa: no cinema, como uma arte visual em sua essência, deve-se privilegiar sempre o “mostrar” em vez do “dizer”.
 
"Abissal" (de Arthur Leite, 17’): o meu favorito particular entre todos os 18 filmes participantes da mostra competitiva. Denso, divertido, emocionante... são vários os adjetivos possíveis de se utilizar para classifica-lo, mas acredito que o mais preciso seja: “pessoal”. Embora seja uma história muito particular do diretor/narrador, sua habilidade em colocar o espectador ao seu lado e fazê-lo embarcar junto com ele é absolutamente fascinante. Buscando informações sobre seu avô que jamais conheceu, Arthur Leite acaba partindo em uma jornada de autodescoberta, aprendendo muito mais com as histórias de sua avó Rosa do que poderia supor à princípio. A forma como ele escolhe para “encerrar” a obra é, em especial, perfeitamente coerente do ponto de vista narrativo com toda a temática apresentada. Uma obra-prima em forma de documentário.
 
Que o excelente nível desta edição se mantenha no festival do próximo ano. Esperando ansiosamente desde já.

 

Arthur Grieser integrou o júri Aceccine do 15º NOIA - Festival do Audiovisual Universitário, em novembro de 2016.

 

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