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For Rainbow 2016 | A tradição e o olhar não-tradicional

06/12/2016

Há dez edições lançando o olhar sobre o cinema LGBT, o For Rainbow – Festival de Cinema e Cultura da Diversidade Sexual “escancara” cada vez mais sua importância. Não somente por representar legitimamente as causas do movimento, mas por se estabelecer de modo muito digno como um espaço de liberdade. Por mais que uma compreensão geral das obras gere um sabor agridoce, o festival, ainda assim, apresenta uma pertinência admirável. 

 

“A Vez de Matar e a Vez de Morrer”, de Giovani Barros, impressiona por flertar com modelos clássicos vindo dos gêneros ‘faroeste’ e ‘horror’. Mesmo que essa aplicação seja feita de modo grosso, é interessante perceber já no início do festival que elementos habituais estão dispostos a serem reavaliados. E o olhar não-tradicional sobre a tradição retorna outras vezes em tons muito diferentes. Surpreende, por exemplo, que haja uma quantidade relevantes de curtas que executem tão rapidamente o poder de suas ideias. A discussão sensível do sueco “O Menino Princesa”, de Sosi Chamoun, por exemplo, poderia ser um trabalho muito óbvio – e até é, se pensarmos na ideia “simples”. Mas as minúsculas nuances entre seus momentos constroem uma abordagem única. Assim como o britânico “Bebê X”, de Brendan Bradley, que discute de um modo brilhante todas as letras da sigla LGBT. 

 

Em compensação, o que não se encaixa nesse desvio é em sua maioria corriqueiro. O longa de produção Brasil-Argentina “Esteros”, de Papu Curotto, embora eficiente, não cativa tanto pelo ritmo tradicional que teme se desafiar e acaba por subestimar a complexidade construída. Situação que se repete em curtas como “Preliminares”, “Sailor” e o cearense “Arthur” que, desses, porém, ainda tem uma compreensão mais sincera de seu foco. 

 

O panorama brasileiro de curta-metragem, ainda assim, apresenta aventuras surpreendentes. “Antes da Encanteria”, de Jorge Polo, Lívia de Paiva, Elena Meirelles, Gabriela Pessoa e Paulo Victor Soares, é um desafio narrativo de muita propriedade que convence justamente por isso. E até mesmo a comédia “Vagabunda de Meia Tigela”, de Otavio Chamorro, conclui-se de modo positivo – embora irregular em sua estrutura, surpreendentemente divertido. “Rosinha”, de Gui Campos, um dos ápices da edição, impressiona pelo cenário “incomum” em que apresenta de maneira tímida e suficiente a sexualidade na terceira idade, desviando-se de caminhos muito lógicos. 

 

O cearense Mozart Freire teve seus dois primeiros (e brilhantes) curtas “Cinemão” e “Janaína Overdrive” exibidos na mesma sessão. Os laços entre suas obras trazem um discurso de choque imperativo. Seja na maneira crua que registra a idealização da luxúria diante a condução do olhar como uma explosão do desejo, seja no debate "pop" sobre a objetificação e comercialização dos corpos – e saltar de um cinema pornô gay para um futuro à lá Blade Runner para contar isso faz de Mozart um realizador de liberdade desafiadora. 

 

Dois dos longas brasileiros têm uma relação não muito saudável com seus poderes. “A Cidade do Futuro”, de Cláudio Marques e Marília Hughes, tem um potencial imenso. Seu conflito principal parece esconder uma força capaz de intensificar a discussão como um motor para um debate mais atual impossível sobre constituições familiares. Mas a pegada inexpressiva (seja pela falta de confiança dos atores, seja pela história que caminha em círculos forçando metáforas e situações óbvias para se resolver) não deixa a ideia decolar. “Waiting for B”, de Paulo Cesar Toledo e Abigail Spindel, também começa muito bem, relacionando a performista Beyoncé e o alvoroço que causa com aspectos que transcendem ao complexo viés socioeconômico de representação. Muito interessante, mas de abordagem insuficiente para 71 minutos. 

 

“Antes o Tempo Não Acabava”, de Fábio Baldo e Sérgio Andrade, porém, é a contramão. Sua construção que passa anos-luz de qualquer aparência tradicional impressiona do primeiro frame ao último. A coragem com que transpõe a obviedade da busca pela identificação à acusação religiosa é eletrizante. É comum vermos representações da luta de resistência LGBT contra os dogmas repressivos de religiões como o catolicismo ou protestantismo. O filme, no entanto, traz as mesmas problematizações em torno de uma cultura indígena, fazendo com que a "crise" lógica seja também (e talvez principalmente) sobre desprendimento cultural. E é competente ao lançar debates complexos e ambiciosos sobre os vazios na vida de Anderson, o índio que quer ter nome de branco. 

 

Mensagens como essa dinamizam o comodismo geral que é, agora vendo de longe, a sensação final dos mais de 30 filmes assistidos. Ainda assim, até a obra mais inexpressiva apresentada tem algo a construir na forma como a sociedade observa a liberdade por meio da relação dos corpos e desejos. Assim como o próprio festival, a existência dessas ideias – seja com um aproveitamento íntegro ou parcial delas – segue de modo positivo e absolutamente necessário.

 

Arthur Gadelha integrou o júri Aceccine do 10º For Rainbow - Festival de Cinema e Cultura da Diversidade Sexual, em novembro de 2016.

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