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Sete Homens e Um Destino (2016), de Antoine Fuqua

11/10/2016

É difícil negar a coragem e responsabilidade posta sob os ombros ombros de Antoine Fuqua. Eficiente, sem ser brilhante, o diretor de “Dia de Treinamento” (2001) e “Nocaute” (2015) tomou para si a missão de dirigir o remake de “Sete Homens e um Destino” (1960), uma obra-prima adaptada de outra obra-prima.

 

O faroeste de John Sturges nasceu da americanização de “Os Sete Samurais” (1954), para muitos, a obra máxima de Akira Kurosawa — que, para os mesmos, é candidato sério a cineasta mais importante da história. As três tramas trazem a mesma base: um grupo de heróis renegados aceitam uma empreitada sem futuro para proteger uma pequena vila de um grupo infinitamente mais forte.

 

Se Sturges e Kurosawa apostam em duelos mais abertos e diretos entre camponeses e saqueadores, Fuqua vai no caminho da metáfora política. O empresário rico Bartholomew Bogue (Peter Saarsgard) é um vilão muito mais odiável que Calvera (Eli Walach), o charmoso “pai” dos bandidos da obra de 1960. Fuqua foge da repetição do drama sobre a natureza humana e ousa ao criticar abertamente a lógica capitalista do lucro. O inimigo é a ganância, não a miséria.

 

No novo filme, Bogue usa sua força (o dinheiro) para obrigar os aldeões a saírem da cidade onde ele instalara uma mina de ouro. É uma forma diferente e mais indireta do que o poder da violência mostrado nos filmes de 1954 e 1960. Outra mudança é na construção dos sete renegados que decidem ajudar a vila. Fuqua é didático ao definir as motivações de Chisolm (Denzel Washington), Faraday (Chris Pratt), Robicheaux (Ethan Hawke) e companhia.

 

O elenco variado, com protagonista negro, sidekick irlandês e aliados indígena, asiático, do sul norte-americano e do México, é outra lógica nova. É divertido ver o time improvável, principalmente pelo timing de comédia de Chris Pratt, mas as história pessoais se amarram frouxamente. Parece algo como “O Grande Dragão Branco” (1988) e seus estereótipos de nação ou os “X-Men”, já que cada personagem tem uma atribuição/poder/arma distintos. Como obra de época, essa diversificação não se encaixa muito na lógica interna, principalmente porque o filme hesita em discutir racismo em várias oportunidades.

 

O roteiro, de Nic Pizzolatto e Richard Wenk, constrói bem a unicidade da obra, ao mesmo tempo em que reverencia algumas das grandes falas criadas por William Roberts em 1960. É ótimo ver Denzel Washington voltando ao clássico “Já me ofereceram muito pelo meu trabalho, mas nunca tudo”. Ao todo, são umas seis falas “repetidas”, o que dá um sabor mais doce a quem conhece o filme original. Tentar identificar Chris, Vin, Britt, O’Reilly, Lee, Harry e Chico em Chisolm, Faraday, Rocks, Robicheaux, Horne, Vasquez e Red Harvest é uma delícia — Pizzolatto e Wenk fundem alguns, modificam outros e mantém alguns, o suficiente para ser interessante, ainda que não tanto original. É um easter egg, como chamam.

 

A principal perda, porém, fica no personagem de Chisolm, em comparação a Chris (Yul Brynner). E aviso, a revelação final pode soar como spoiler. A atuação de Washington é segura, equilibrada e mostra um personagem com camadas, assim como aquele de Brynner. O carrancudo homem da lei negro, porém, esconde motivos para ajudar Emma Cullen (Haley Bennett), motivação que Chris não precisara. A vingança é quem o move, o que faz o personagem perder a sua essência e o que faz de “Sete Homens e um Destino” (1960) uma obra memorável: a humanidade.

 

Efetivo nas cenas de ação, divertido com os entrecortes de humor, “Sete Homens e um Destino” é entretenimento puro. Reciclável, ainda que bom. As adições de dramas pessoais e efeitos visuais é festim. Tentam esconder que, 56 anos depois, o filme de John Sturges ainda oferece muito mais do que a Hollywood de hoje é capaz de fazer. O tiro é certeiro, só que, hoje, o alvo não se importa tanto assim com o resultado da luta.

 

Publicado pelo autor no Blog Cinema às 8h / O Povo Online.

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