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O Silêncio do Céu (2015), de Marco Dutra

11/10/2016

Aos 36 anos, o cineasta Marco Dutra já se estabeleceu como um dos grandes diretores de obras de gênero no cinema brasileiro contemporâneo. Depois de uma estreia magistral com o ótimo “Trabalhar Cansa” (2011), que assina ao lado de Juliana Rojas, e do irregular “Quando Eu Era Vivo” (2014) — ambos fincados no horror —, Dutra agora investe no suspense e encontra o seu desenvolvimento mais equilibrado. “O Silêncio do Céu”, seu novo longa, alia ritmo, terror psicológico e drama familiar em uma obra imperdível.

 

Baseado no romance “Era el Cielo”, do argentino Sergio Bizzio, “O Silêncio do Céu” começa de supetão, assim como o livro. Mario (Leonardo Sbaraglia) chega em casa mais cedo e se depara com a mulher, Diana (Carolina Dieckmann), sendo estuprada por dois desconhecidos. Tomado por medos inomináveis, que o atormentam desde a infância, Mario nada faz e nem conta para a esposa o que testemunhara. Diana, por sua vez, também se reserva ao silêncio. Emudecidos e se sentindo culpados, os dois são tomados por uma distância invisível e que só aumenta.

 

O grande trunfo do roteiro, escrito por Bizzio, Lucía Puenzo e Caetano Gotardo, é conseguir trabalhar os diversos dilemas internos sem recorrer excessivamente a flashbacks e a narração em off. A voz interior de Mario surge pontuando algumas cenas, mas, em vez de protagonizar a ação, circunda a memória do casal. É um recurso, não um vício.

 

A forma como o passado se revela, sempre paralelo à trama, desempenha papel fundamental em estabelecer o ritmo galopante da obra. Não é um suspense de revelações, mas um suspense de segredos. O que está em voga em cada gesto é o íntimo dos personagens e a forma como eles se construíram para fora de sua mente. Ou seja, com a narração bem usada e a excelente atuação de Leonardo Sbaraglia, fica escancarada a dualidade entre quem a pessoa é e quem ela quer parecer. Isso tudo chega ainda pontuado de metáforas. Cactos, intimidade, medo, impotência, ciúme.

 

O terceiro ato do longa, a ação em si, é quase um espelho da introdução de “Crime e Castigo”, clássico do russo Fiódor Dostoiévski. Ou seja, mantém a força clássica de atos justiceiros. Aviso de spoiler. Só que, dessa vez, o que importam são os crimes, tanto o que desencadeia o longa, como o que o encerra.

 

Inteligente, instigante e com ritmo sempre crescente, “O Silêncio do Céu” é daqueles filmes que nos pegam de surpresa. Passado no Uruguai, o filme traz Carolina Dieckmann muito bem tanto em espanhol, quanto em português. Com um roteiro cheio de curvas suaves, o longa tem um trabalho intenso fora de campo. O encadeamento das revelações é essencial para o crescimento da tensão, já que Dutra entende que o drama pessoal é o que mais contribui para o suspense psicológico.

 

Ao mesmo tempo, o filme consegue escapar raspando de um retrato misógino de uma relação. Não é uma obra sobre os efeitos de um estupro no marido de uma vítima. Tampouco é sobre o sentimento de impotência de Mario — um cacto “rabo de macaco”, que não fica ereto. É sobre a relação do casal. Intimidade. Diálogo (ou a falta dele). Sobre quem somos para nós e quem somos para o outro.

 

Publicado pelo autor no Blog Cinema às 8h / O Povo Online.

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