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Lembranças de um Amor Eterno (2015), de Giuseppe Tornatore

11/10/2016

Ora bem, ora mal, o amor é motivação e tema do cinema do italiano Giuseppe Tornatore. Diretor e roteirista tanto de obras-primas como “Cinema Paradiso” (1988) e “Estamos Todos Bem” (1990), como filmes mais esquecíveis como “A Lenda do Pianista do Mar” (1998) e “O Melhor Lance” (2013), o italiano mostra sempre uma visão única, desacerbada, do sentimento definidor do humano como espécie.

 

Em “Lembranças de um Amor Eterno”, Tornatore não se contém. E erra, tristemente. O filme se debruça sob a história de amor de Amy Ryan (Olga Kurylenko), dublê profissional que sonha em ser astrônoma, e seu mentor/amante, o professor doutor Ed Phoerum (Jeremy Irons). E, se você não quiser spoiler, é melhor para por aqui, já que o primeiro ato do filme já vem com uma grande revelação. Ed morre, mas segue derramando amor sobre Amy por meio de vídeos, emails e mensagens. Algo que soa mais como um drama romântico água-com-açúcar (“P.S. Eu Te Amo”/2007), não um filme de Tornatore.

 

Aliás, pior. Se “P.S. Eu Te Amo” é uma obra sobre superar uma perda, “Lembranças de um Amor Eterno” é de um amor doentio, uma tortura àquela que ficou. Pontuada por uma direção de fotografia melancólica de Fabio Zamarion e uma musicalidade (de Ennio Morricone) de tirar o fôlego, a obra não parece se dar conta de estar mostrando um amor abusivo na maioria das vezes. Travestido de figura paterna, Ed segue manipulador, controlador. Os ensejos de ficção científica trazem charme, mas deixam a obra ainda mais artificial, ainda mais se do lado da obsessão do protagonista morto.

 

Ed não parece se conter em ter vivido um fragmento de amor com Amy. Ausente em vida, ele se faz presente após a morte e não permite à amada qualquer tipo de luto. Ele não dá espaço para a personagem amar a outro — e até indica um irônico ataque de ciúme. A dedicação romântica dele se finge de querer bem, de ajuda a crescer, mas se mostra só uma sufocante tortura.

 

A decupagem da obra também reserva lá seus mistérios. A relação fria de Amy com a família de Ed não é clara. Os diálogos entre a amante e Victoria (Shauna MacDonald) guardam um mistério de uma artificialidade imensa. Lá vai outro spoiler: o filme indica que a moça é esposa do professor, quando na verdade se trata da filha. Truque bobo para adicionar tensão forçada.

No final das contas, parece que apenas um personagem se dá conta do absurdo da situação. Dr. Sobieski (Paul Ridley), médico de Phoerum, faz uma leitura completa do relacionamento abusivo e a apresenta para o público. Ou seja, Tornatore sabia o quão hediondo era aquele tipo de amor que propunha. Ainda assim, o fez.

 

Dói, mas a obra de Tornatore é egoísta. Doente. Boba e apaixonada como é, “P.S. Eu Te Amo” (2007), de Richard LaGravenese, é obra bem mais honesta. Talvez Tornatore deva se debruçar mais sobre o amor a coisas inanimadas, como o cinema, do que a mulheres vulneráveis. Ou, talvez, foi só um tropeço de quem tem o direito de errar.

 

Publicado pelo autor no Blog Cinema às 8h / O Povo Online.

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