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Café Society (2016), de Woody Allen

06/09/2016

Woody Allen tem, talvez, a carreira mais longa e prolífica do cinema americano.

 

Então, é até natural que ele se repita ocasionalmente após 40 longas. "Café Society" é outra de tantas obras em que o cineasta tergiversa sobre jovens judeus meio neuróticos e pessoas com paixões duplas. Só que, na falta de inspiração, a revisita a tramas já conhecidas soa como autoplágio.


Existe um charme visual imenso na Hollywood dos anos 1930 pintada por Allen.

 

Os personagens, leves, divertidos, bem dirigidos, só fazem a cidade crescer. Mas acaba aí. A nova comédia do mestre do humor é reciclável, esquecível. Nela, ele apresenta um judeu de família entre o clichê e o hilário – daquelas que serviriam para drama não fosse o timing humorístico do diretor. Nela, há um protagonista com um charme estranho de menino judeu mais honesto do que o bom senso pede. Nela, há mulheres fortes, tridimensionais e cheias de caprichos. Em suma, não há nada de novo.


Em 1977, Woody Allen criou aquela que julgo minha comédia favorita. "Noivo Neurótico, Noiva Nervosa" ("Annie Hall", no original) à parte a tradução horrível do nome, era dinâmica, original, sagaz e absolutamente hilária. E a base do garoto judeu cheio de neuras apaixonado por uma mulher forte, inteligente e, francamente, bem melhor do que ele já perfeitamente retratada lá, 39 anos antes. Mas não para aí. "Café Society" disserta abertamente sobre apaixonar-se por mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Soa "Manhattan" (1979) demais para o meu gosto, citando outra obra-prima de Allen. Ainda mais se adicionada a informação de haverem amores com grande diferença de idade em ambas as obras.


Resumidamente, "Café Society" é esse conjunto de ideias recicladas. Bobby (Jesse Eisenberg), um “jovem e ambicioso nova-iorquino” (para ressaltarmos o clichê), resolve se mudar para Los Angeles e se arriscar na indústria cinematográfica. Lá, ele é ciceroneado por seu tio, Phil Stern (Steve Carell), poderoso magnata de Hollywood, e conhece a encantadora secretária dele, Vonnie (Kristen Stewart).

 

Perdoem o spoiler, mas é óbvio que Bobby se apaixona por Vonnie, bem como é óbvio que ela tem um caso com Phil. E esse triângulo amoroso ganha outras arestas pouco relevantes.


Jesse Eisenberg, sempre eficiente, encarna o seu Woody Allen interior – algo que Owen Wilson fez em "Meia-Noite em Paris" (2011) ou John Cusack em "Tiros na Broadway" (1994). Sabe, aquele personagem cheio de manias, judeu, engraçado, inteligente, meio misógino, mas charmoso. A ótima Kristen Stewart, por sua vez, parece desconfortável como musa – algo que encaixa bem na personagem. Steve Carell, por outro lado, deixa Phil ainda mais falso e canastrão, o que é outra decisão que funciona. O restante do elenco apenas orbita em volta do trio, aparecendo e desaparecendo convenientemente de acordo com a necessidade da trama.


Vez ou outra, existe um vislumbre de genialidade, como quando Bobby, cliente de primeira viagem, se vê diante de Candy (Anna Camp), prostituta debutante. O todo, porém, nunca consegue se segurar com unidade. É, em suma, uma obra pouco inspirada como várias de Woody Allen. Desde 2006 são 11 filmes e só "Vicky Cristina Barcelona" (2008) e "Blue Jasmine" (2013) são memoráveis. Já "Café Society" fica como uma obra menor, algo a que só Woody Allen poderia se permitir.

 

Publicado pelo autor no Jornal O Povo.

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