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Aquarius (2016), de Kleber Mendonça Filho

05/09/2016

Em seu segundo longa-metragem, o cineasta e crítico de cinema pernambucano Kleber Mendonça Filho parece que trabalha em um campo de ideias um tanto quanto premonitório, olhando à frente de uma sociedade que está em constante ruptura ou aparando suas arestas. As controvérsias que "Aquarius" se envolveu desde a sua primeira exibição, no Festival de Cannes, não são suficientes para justificar a celebração de grande parte da crítica brasileira e internacional, pois a obra é maior do que o contexto em que se envolveu nos últimos meses.

 

Sonia Braga interpreta uma jornalista viúva que se nega a vender o apartamento onde mora, que é o último do condomínio Aquarius. A personagem Clara passa a sofrer constantes assédios da construtora que quer modernizar o local a qualquer custo. Os temas são explorados de forma sutil dentro de uma construção narrativa madura e que sabe exatamente em quais feridas quer mexer.

 

Existe uma intenção imediata de discutir a preservação da memória e a chegada daquilo que é novo. Essa dicotomia está constantemente em tela, dentro de diversos contextos, seja na disposição dos móveis que guardam histórias, dos vinis que marcam épocas e dos corredores onde muitos passaram. A memória também está dentro da própria personagem que, mesmo aberta ao mundo novo, não pode simplesmente apagar tudo o que viveu, porque foi justamente isso que fez com que ela se tornasse o que é hoje.

 

Um dos grandes acertos do roteiro é não fazer de Clara uma personagem que vive apenas do saudosismo. Ela entende que o tempo passa, até porque ela sente isso na pele, e se adapta ao andamento das coisas, mas tem completo domínio do que quer para a sua vida, de sua independência e de suas emoções. Ela não deve nada a ninguém, nem mesmo aos filhos  que pariu.

 

Essa maturidade evita que Clara perca tempo com aquilo que não a interessa. Talvez por ter vivido todo e qualquer tipo de repressão, seja política, social, econômica ou de gênero, Clara se importa com o que construiu até agora e projeta sua vida para o futuro da forma que acha correto.

 

Ela é uma mulher segura de si, uma sobrevivente das cicatrizes deixadas pela vida, que teve seus problemas como qualquer pessoa e que tem culhões para enfrentar qualquer adversidade que apareça, como se não tivesse mais tempo a perder com o que considera pequeno. Tudo isso dentro de um cenário onde a protagonista também tem suas falhas e não é exatamente uma heroína que vai salvar o edifício Aquarius da demolição.

 

Universo feminino
 

Aos 65 anos, bem estabelecida financeiramente e com os filhos criados, Clara representa o empoderamento feminino de uma forma mais real. A própria Sonia Braga é um elemento da resistência e memória cultural brasileira e o filme cresce não somente por causa dela, mas também por ela, que confronta os abusos de um universo machista, misógino e capitalista.

 

O diretor entende que o cinema precisa ir para frente e que problematizar alguns assuntos pode não ser mais tão interessante assim. Misturando tantos temas de forma sutil, a trama alcança uma unidade pertinente onde tudo que está em cena é familiar. O argumento viaja
da luta da mulher ao respeito entre as gerações; da segregação social ao abuso de poder, e tantas outras camadas que é preciso revisitar o filme algumas vezes para alcançar a profundidade de sua concepção.

 

O cinema de resistência de Kleber Mendonça Filho continua jogando um olhar crítico sobre a divisão de classes no Brasil, agora de forma mais acessível, narrativamente falando, do que aconteceu em "O Som ao Redor".

 

Clara sofre sabotagens de todos os tipos para sair do apartamento, sem esmaecer. A construtora, símbolo do capitalismo que tudo pode transformar quando a proposta financeira é irrecusável, joga sujo para destruir seu lar. Por destruição, entenda que é muito mais do que física. É simbólica e contextual. A mulher, que não é mais o sexo frágil há muito tempo, pode decidir sobre a sua própria vida, seu lar, seus filhos, seu corpo, seus amores e seu destino. Ela não precisa ser mandada porque tem voz.

 

O roteiro também faz um retrato mais cru do comportamento feminino aos 60 e poucos anos, talvez um dos melhores dos últimos tempos. Em uma determinada cena, Clara e suas amigas conversam sobre relacionamentos de uma forma tão natural e palpável, que é possível se sentir (e se divertir) dentro daquela conversa. É de costume colocar mulheres dessa faixa etária enfrentando uma crise dramática demais ou com elementos de humor inadequados, mas o respeito de Kleber Mendonça Filho pela sua personagem é engrandece a representação e a importância de Clara. O roteiro não sufoca a personagem, ele a liberta.

 

Fantasmagórico
 

A segurança de Kleber Mendonça Filho para conduzir um argumento gigante e repleto de metáforas ressalta trabalho preciso de sua equipe técnica. Tudo é milimetricamente bem executado pelo diretor, que se apropria de uma montagem efetiva por não deixar o ritmo da história cair (são 145 minutos intensos de conflitos). A paixão por Clara e pelos personagens secundários torna difícil demais se desligar da história. Tudo ali é tão familiar, tão sufocante e, ao mesmo tempo, tão libertador.

 

O diretor filme os apartamentos vazios e a sujeira daquele mundo onde a protagonista está com um olhar assustador, onde tudo pode desmoronar a qualquer momento. Ele sabe como brincar com as emoções do espectador, seja fazendo drama, humor ou suspense. Em um
determinado momento, o diretor filme dois carros em marcha ré, dentro de um espaço minúsculo, com a câmera que pouco mostra, mas tanto tira o fôlego pela incerteza do que está acontecendo. Em outro, ele mostra que a Praia de Boa Viagem não é propícia para banho, mas faz com que um mergulho de Sonia Braga seja tão assustador e belo quanto as ondas do mar.
Sonia Braga é uma força da natureza, cujo magnetismo é explorado em todas as cenas. A veterana está completamente à vontade com sua idade, com seu corpo, com os diálogos ácidos e com as situações que precisa desenrolar. É como se ninguém mais pudesse contribuir tanto com "Aquarius" quanto ela, que sempre seduziu seus espectadores e aqui não deixa de ser diferente. Ao lado dela, outros nomes de destaque também completam o elenco, como os sempre excelentes Irandhir Santos e Maeve Jinkings.

 

Momento

 

O cinema político de Kleber Mendonça Filho não precisa de controvérsias para funcionar com clareza. A precisão da linguagem e da dramaturgia que seus filmes carregam fazem com que ele esteja entre os principais cineastas dessa geração.

 

"Aquarius" estreia em um momento extremamente importante para mostrar a força do cinema brasileiro contemporâneo autoral. A obra se junta a tantos outras produções de qualidade que já ganharam as telas, como "Boi Neon", de Gabriel Mascaro; "Para Minha Amada Morta", de Aly Muritiba; "Ela Volta na Quinta", de André Novais Oliveira, e "Mate-me Por Favor", de Anita Rocha da Silveira, para citar alguns, mostrando que o cinema nacional de qualidade está na moda e resiste ao tempo, assim como Clara.

 

Publicado pelo autor no Jornal Diário do Nordeste.

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