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Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977), de Hector Babenco

14/07/2016

Lúcio Flávio: “Bandido é bandido; polícia é polícia”

 

O que mais dói em uma revisita a “Lúcio Flávio, O Passageiro da Agonia” (1977), a obra que projetou o diretor Hector Babenco em todo o Brasil, é constatar que, passados quase 40 anos, o filme se mantém atual. Mais do que uma obra de glorificação do bandido da moda nos anos 1970, o longa é um retrato da corrupção endêmica nos sistemas de força brasileiros, instituída, principalmente, a partir da tomada de poder pela ditadura militar, em 1964.

 

Lúcio Flávio (Reginaldo Faria) não é um ídolo do povo. É um personagem hermético, explosivo e vingativo. Longe de um anti-herói de bang-bang, ele é um sujeito que ultrapassou uma linha ética sem volta. Babenco escolhe mostrá-lo como um sujeito cinzento, humano. Sem esconder os assassinatos a sangue frio cometidos pelo protagonista e sua gangue de assaltantes de bancos, o diretor brasileiro nascido na Argentina despe o personagem da aura de glamourificação do crime com que os jornais da época e os filmes de hoje pintam criminosos violentos. Em suma, a obra foca na queda do personagem, quase um mito do jornalismo policial da época e suspeito de comandar mais de 200 assaltos a banco.

 

Para além do protagonista, porém, Babenco traz uma fauna rica de personagens, adaptados do livro-reportagem homônimo escrito por José Louzeiro – uma das obras do gênero mais importantes do Brasil. Um dos focos é a equipe de atores escalados para fazer o corpo policial corrupto. O dr. Moretti de Paulo César Pereio é coberto daquele charme cafajeste que marca a carreira do ator. As dúvidas de Lúcio Flávio sobre o caráter do personagem acabam rebatendo na lábia do antagonista. Já o poder de Bechara é expresso já no olhar de Ivan Cândido. Milton Gonçalves também se mostra memorável como o dúbio 132.

 

Baseado no relato do criminoso, o filme esmiúça parte da estrutura de poder paralelo na polícia militar da época. A formação do chamado “Esquadrão da Morte”, um protótipo das milícias em periferias brasileiras hoje, mostra a corrupção imbricada profundamente no sistema. A todo momento, Babenco opta por diferenciar bandidos e policiais, mas em nenhum momento ele sobrepõe o caráter de uns sobre os outros. Os assaltantes arriscam a vida por dinheiro, mas seguem homicidas – ainda que relutantes. Já os policiais lucram do trabalho (desonesto) deles, enquanto posam de heróis da sociedade.

 

O ato final, quando os destinos de todos os personagens já parecem traçados, é emblemático. Você sabe quem vence e quem perde ao apenas analisar a hierarquia entre criminosos e oficiais. É como o protagonista diz: “bandido é bandido; polícia é polícia”. O destino não pode ser o mesmo. Os policiais inatingíveis, revestidos de um colete de poder, soam como os imunes políticos – tanto os de agora como os de então. Enquanto uns pagam com as vidas, outros ganham aposentadorias honrosas, salários cala-boca.

 

Em seu então terceiro longa-metragem, Hector Babenco se mostrava um diretor com a sensibilidade para ouvir e o distanciamento para retratar pontos de vista – afinal, seria presunção acusá-lo de pintar realidades.

 

Essas qualidades atingiram outro ápice em “Pixote: A Lei do Mais Fraco” (1981), também baseado em obra de Luzeiro, um filme de potência ímpar e que conquistou plateias dentro e fora do Brasil. Outra obra digna de nota por ouvir personagens à margem é “Carandiru”, adaptada do livro de Dráuzio Varella, que ainda que tenha sua força diluída entre o excesso de personagens e grafismo da violência, segue como um bom exercício de escuta. O clássico “O Beijo da Mulher Aranha” (1985) é outro a se curvar ao relato de personagens à margem – mas ancorado em uma obra ficcional, ao contrário de “Lúcio Flávio” ou “Pixote”.

 

“Lúcio Flávio”, em sua época, levou mais de 5 milhões de pessoas aos cinemas, além de ter sido aclamado pela crítica. Décadas depois, o filme segue forte e, infelizmente, atual – bem como a melhor parte da filmografia de Babenco. É não só um retrato de uma época, como também um recorte da relação de um País com sua realidade violenta. 

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