No Tempo das DiligĂȘncias (1939), de John Ford
- Daniel Herculano
- 6 de jul. de 2016
- 3 min de leitura

NinguĂ©m imaginou que John Ford conseguiria filmar "Nos Tempos da DiligĂȘncia" ("Stagecoach", 1939). O diretor vencedor do Oscar pelo thriller "O Delator" (1935) imagina um western Ă©pico, filmado em locaçÔes reais, no Monument Valley, no ĂĄrido Arizona, na fronteira com Utah. A ideia de adaptar um conto de Ernest Haycox (âThe Stage to Lordsburgâ) era desafiadora. A trama acompanha uma viagem de diligĂȘncias em todo o Oeste americano, com a previsĂŁo de vĂĄrias de sequĂȘncias de ação.
Em 1938 não havia nenhuma estrada pavimentada através de Monument Valley e era inviåvel levar equipamentos para filmagens naquele local. Razão pela qual ainda não tinha sido utilizado como um local de filme antes. Além disso, os westerns (de primeira linha) haviam sido deixados de lado com a produção de filmes falados.
Contudo, para a primeira das 14 colaboraçÔes entre o diretor John Ford e o astro John Wayne, tudo conspirou a favor da produção de um dos melhores faroestes da histĂłria do cinema. O cineasta conseguiu encaixar o projeto com um produtor independente e assim ficou livre do controle dos estĂșdios de Hollywood. Bom tambĂ©m para Wayne, que era visto como um ator de filmes B e que finalmente conquistava pĂșblico e crĂtica.
Voltando Ă histĂłria do filme, acompanhamos um grupo de pessoas um tanto diferentes, mas que estĂŁo juntas com o mesmo objetivo: atravessar o paĂs dentro de uma diligĂȘncia em perigo constante. Ao longo da viagem, o clima Ă© claustrofĂłbico (todos os interiores do filme possuem tetos) e, liderados por um destemido cowboy, Ringo Kid (John Wayne), o grupo luta contra desastres naturais e ataques de bandidos e Ăndios, incluindo o bando de GerĂŽnimo.
Em pleno Deserto de Mojave, John Ford apresenta seu protagonista em uma cena memorĂĄvel. Entre o distanciamento quase sem foco, atĂ© um enquadramento perfeito, temos a indecisĂŁo entre o que Ă© certo e errado. Com essa sequĂȘncia, tudo que precisamos saber Ă© na verdade uma pergunta: Afinal, devemos confiar neste homem?
Dentro da diligĂȘncia, o que se vĂȘ no grupo de personagens Ă© microcosmo de uma sociedade cheia de camadas. Inevitavelmente veremos confrontos particulares, que colocam Ă prova o carĂĄter de alguns, enquanto outros atĂ© revivem fantasmas do passado em busca de uma segunda chance.
AlĂ©m dos conflitos internos, o faroeste apresenta tambĂ©m o perigo iminente de um ataque indĂgena. E quando a ação explode na tela, o que se vĂȘ Ă© um alto grau de realismo imposto por John Ford, Mas importante ressaltar, com a ajuda de um conjunto tĂ©cnico perfeito, incluindo aĂ o trio fotografia, montagem e trilha sonora. Ao apontar suas cĂąmeras para paisagens naturais gigantescas â e em contraponto Ă s sequĂȘncias fechadas que emitem tensĂŁo â as imagens abraçam a grandiosidade do local em forma de panorĂąmicas inesquecĂveis.
Indicado para sete Oscar (melhor filme, diretor, montagem, fotografia P&B, direção de arte, trilha sonora e ator coadjuvante-Thomas Mitchell), vencendo os dois Ășltimos, o filme Ă© demais. eleito como um dos 10 melhores filmes de 1939 pelo National Board of Review, "No Tempo das DiligĂȘncias" Ă© uma obra-prima obrigatĂłria. Para se ver e rever. E de novo. E novamente. E outra vez.
Lançado pela distribuidora Classicline, o DVD vem em embalagem tradicional, porĂ©m com caixa transparente, capa dupla face e em DVD duplo. O primeiro disco contĂ©m o filme (dublado e legendado) e o segundo exclusivo com extras do western (vĂdeos especiais; galeria de pĂŽsteres; entrevista com John Ford; biografia e filmografia do diretor), porĂ©m sem legendas.
Publicado pelo autor no Clube Cinema.
