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Olhar do Ceará 2016 | Por um cinema local provocador

02/07/2016

“Antes da Encanteria”, de Elena Meirelles, Gabriela Pessoa, Jorge Polo, Lívia de Paiva e Paulo Victor Soares.

 

O 26º Cine Ceará – Festival Ibero-americano de Cinema abriu uma extensa janela de exibição para filmes assinados por jovens realizadores cearenses. A Mostra Olhar do Ceará recebeu 39 obras com as mais diversas propostas, reunindo produções autorais, feitas em cursos de formação ou com orçamentos mais generosos. Essa mistura resultou em uma maratona difícil para os jurados oficiais e da crítica, mas cumpriu o papel de difundir as inquietações e os olhares desses jovens, que também puderam conversar sobre os filmes após as sessões.

 

O documentário “Antes da Encanteria”, rodado em Icó, no interior cearense, dirigido por Elena Meirelles, Gabriela Pessoa, Jorge Polo, Lívia de Paiva e Paulo Victor Soares, exprime com precisão o pensamento sobre o jovem cinema cearense fora da caixa. Um coletivo de realizadores fala sobre outro coletivo de artistas do interior, em defesa da diversidade da expressão artística e da identidade dos personagens. Não é um documentário tradicional, por isso não perde tempo com longos processos expositivos sobre o mesmo tema. É um filme que utiliza a performance e as possibilidades da linguagem cinematográfica, resultando em um curta que flerta com o humor, com uma abordagem social madura e com a própria arte por meio da construção ideológica de imagens e personas.

 

É curioso observar que existem novas propostas saindo do armário no cinema cearense, em busca de novos rumos, dividindo espaço com outros filmes preservam fórmulas usadas incansavelmente que deram certo há não muito tempo. São essas propostas mais ousadas que colocam o cinema local para frente. “Cinemão”, de Mozart Freire, apropria-se do requinte da imagem e da cuidadosa montagem para estudar as atividades de um cinema pornô. A composição do espaço como personagem fundamental da narrativa sob o olhar atento do diretor transforma o curta em um trabalho cênico de destaque. Freire também traz novos ares ao seu cinema feito praticamente sem recursos, mas que em nada prejudica o produto final, bem acabado e efetivo. O cineasta também concorreu na Mostra Competitiva de Curtas Brasileiros com “Janaina Overdrive”, uma aventura cyberpunk inventiva, provocando os espectadores e sem medo algum de arriscar no cinema que acredita.

 

Um breve passeio pelas ruas de uma Fortaleza que se transforma. Em “Ponte Velha”, Germano de Sousa acompanha dois amigos para lembrar das mudanças que aconteceram não apenas entre eles, mas na própria cidade. Com um trabalho rigoroso de câmera e montagem, além dos sedutores diálogos dos personagens, o curta desliza pertinho do seu desfecho, ao deixar claro demais suas intenções, perdendo a oportunidade de provocar e despertar o imaginário de quem assiste. Aliás, escolher um cinema provocador, pensado para ter relevância artística, é um bom caminho. David Terao não hesita em fazer de "Casa do Barão" um trabalho que flerta com gêneros e utiliza com primor o silêncio para a concepção da dramaturgia, enquanto Fernanda Brasileiro trabalha os hiatos de uma relação em conflito em "Aquele Céu de Azul Petróleo".

 

As experimentações desse novíssimo cinema cearense se juntam a obras com um tom mais tradicional, de realizadores que já têm projeção em circuito, como “O Homem que Virou Armário”, de Marcelo Ikeda; “Quitéria”, de Márcio Câmara, e “Os Olhos de Arthur”, de Allan Deberton. Contando com uma grande produção, se comparado com os demais filmes da Mostra Olhar do Ceará, o resultado é o esperado: obras que dialogam com temáticas mais aprofundadas. Ikeda discorre a burocracia e o ócio, além de criticar protocolos enfrentados pela cultura no Brasil, enquanto Câmara discute o feminino sem temer o humor involuntário. Já Deberton toca no que é sensível às relações familiares, a partir da relação de um personagem autista e sua cuidadora. 

 

Foi um ano onde o cinema cearense teve mais espaço do que nunca dentro de casa. Outros quatro curtas locais integraram a competição principal, número que há um bom tempo não era registrado no festival, além do longa-metragem “Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois”, de Petrus Cariry, na disputa ibero-americana. O Cine Ceará reafirma seu compromisso com o incentivo e a difusão do audiovisual local, fato preciosíssimo principalmente nos dias de hoje onde a prioridade da cultura é uma incerteza. É justo olhar para esses filmes de forma crítica para compreender o que vem daqui para frente e entender o lugar do nosso Estado no cinema nacional.

 

Diego Benevides integrou o júri Aceccine da Mostra Olhar do Ceará no 26º Cine Ceará - Festival Ibero-americano de Cinema, em junho de 2016.

 

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