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X-Men: Apocalipse (2016), de Bryan Singer

25/05/2016

 

“X-Men: Primeira Classe” (2011) é, facilmente, a melhor trama dos mutantes da Marvel no cinema. Muito disso se deve à construção da relação entre Professor Xavier (James McAvoy), líder dos super-heróis, com Magneto/Erik Lensherr (Michael Fassbender), principal vilão das tramas dos quadrinhos. Focada na grande amizade que azeda por conta do descontrole da ira do antagonista, o filme ganha vida com um vilão completamente tridimensional. Ao mesmo tempo em que o furor homicida e o ódio aos humanos podem assustar, a paixão pela defesa dos mutantes e o histórico sofrido trazem imensa empatia ao personagem.

 

A dimensão paradoxalmente humana de Magneto é o que o tornam grande e o que faz o filme de 2011 crescer. A empatia do personagem, adaptada dos quadrinhos de forma magistral por Matthew Vaughn, ainda dá impulso a sequência da obra, “X-Men: Dias de um Futuro Esquecido” (2013), que mais uma vez explora a relação de ódio, preconceitos e medo entre humanos e mutantes. Cresce, mais uma vez, ao tratar de metáforas sérias e ao reimaginar eventos históricos. Acaba sendo uma obra menor, mas que guarda seus momentos.

 

Terceira parte da segunda trilogia adaptações dos mutantes ao cinema (a outra foi de 2000 a 2006 e as linhas do tempo se misturaram em 2013 – mas quem se importa?), “X-Men: Apocalipse”, de Bryan Singer, é um chiclete mastigado das obras anteriores.

 

Pela terceira vez em três filmes, Magneto vive um dilema moral. Após tentar uma vida normal, da forma que Xavier o aconselhara, ele usa seus poderes para salvar um colega e acaba perseguido por isso. Segue cena (bem ruim) de tragédia, que vira sequência de vingança e descamba no “mestre do magnetismo” conhecendo o vilão principal da trama, Apocalipse. E virando um seguidor do “primeiro dos mutantes” sem qualquer motivo lógico.

 

O que mais incomoda em “X-Men: Apocalipse” é a completa falta de motivação dos personagens. Adaptado diretamente dos quadrinhos, onde o dualismo bem/mal é muito mais evidente, o vilão interpretado por Oscar Isaac surge como um líder messiânico mutante. Em três tempos, ele acumula quatro seguidores completamente fiéis – mas nenhum parece ter razão para cultuá-lo. Não é como se a Irmandade de Mutantes seguisse Magneto para lutar de forma brutal por um mundo dominado por super-humanos. Não, todos parecem dispostos a seguir um ser que só se justifica pelo poder.

 

Bryan Singer não parece disposto em nenhum momento a discutir religião. Em vez de vir apresentado como uma versão amoral de Jesus, Apocalipse é apenas um Anti-Cristo. Previsível, odiável, preto no branco. Acaba um roteiro covarde, ancorado em um personagem tão unidimensional quanto a versão dos quadrinhos, que representa algumas das piores nuances da mídia. Uma boa obra (seja da sétima ou da nona arte) precisa se adaptar a diferentes públicos; nem só adultos, nem só crianças.

 

Ainda que narrativamente o filme consiga um desenvolvimento satisfatório, a obra pouco flui enquanto longa de ação. Acaba que quase todas as sequências se fixam em “um mutante jogando seu poder sobre o outro”. Falta surpresa, falta criatividade. Efeito visual não cobre falta de inventividade.

 

Em comparação às HQs, o longa toma ainda uma série de liberdades – algo recorrente desde “Primeira Classe”. Mas se as mudanças lá conseguiam renovar tramas e personagens, as adaptações cá só economizam tempo de tela. A origem modificada de Ciclope (Tye Sheridan) e Tempestade (Alexandra Shipp), a confusão nas linhas do tempo, o papel de liderança de Mística (Jennifer Lawrence) parecem todas excessivamente preguiçosas.

 

Aliás, o pecado parece se repetir também na melhor cena do filme – que mais uma vez traz Mercúrio (Evan Peters) correndo e fazendo piadas enquanto o mundo se move em câmera lenta. A preguiça é tanta que a resolução do terceiro ato usa o mesmo ápice que “X-Men 2” (2003). AVISO DE SPOILER: é o que eu chamo de “Deus Ex-Fênix”. Se não dá para vencer o inimigo, basta, do nada, uma força cósmica milenar dar uma “ajudinha” a Jean Grey (Sophie Turner).

 

Ao final de longos 144 minutos, “X-Men: Apocalipse” escancara o que os filmes de super-heróis estão se tornando: cada vez mais genéricos, cada vez mais repetitivos. É maio e essa já é a quarta obra do (cada vez mais) saturado sub-gênero.

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