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A Vez de Matar, a Vez de Morrer (2016), de Giovani Barros

Às vezes, para ser imaginada, a história só pode transcorrer se oscilar por fraturas. É como se a composição dos destinos e das sortes dos personagens precisasse de um desenrolar de constantes intervalos. Isso, por um lado, garante um ritmo sincopado, tracejado por pontuações. E por outro, repercute na instauração de um clima de expectativas, nem tanto em direção a um saber sobre os desfechos, e mais pelo embate com as próprias razões daquilo que já se espera no porvir. A vez de matar, a vez de morrer, de Giovani Barros, já se baseia na cisão desde o próprio título: como numa deriva da pontuação, ele separa dois momentos que não serão necessariamente sucessivos, mas talvez, estranhamente, paralelos.

 

Paradoxo do tempo que a montagem reverbera: há dois acontecimentos encadeados pelo antes e pelo depois, pela causa e pela consequência, mas a ficção vem arranjar seus recursos e devolvê-los ao espectador segundo outra escala temporal, quase como se uma possível simultaneidade de sentido pudesse ser retraçada pela escritura de vinganças entremeadas. Se um crime gera o outro, no âmbito da narrativa, é possível também construir um outro sentido pela montagem, para gerar a vertigem de uma espiral.

 

Talvez só se possa operar em meio a esse ciclo da violência quando se entra na lógica de um constante volteio que a montagem vai gerando. A trama do litígio tem lugar em Nova Casa Verde, localidade que se precipita para a cena como uma imediação de limites bastante circunscritos. Em um território de horizontes pouco ampliados, a espiral faz girar uma contínua oscilação de desejos e de conflitos. Não existem brechas para apaziguamentos. A latência de vontades pode se manifestar e vir à tona, mas há, sobretudo, uma aridez das relações, poucas vezes suavizada e predominantemente cadenciada pela expressão de uma disputa.

 

Pode ser em um jogo de futebol, no qual os corpos se chocam sem muitos cuidados, ou em um festejo com música e cerveja, quando o acender de um cigarro é feito como provocação, e a brincadeira que gera sociabilidade é a da queda de braços: em todas essas experiências, ronda um espírito bastante permeado pelo confronto, ou pela expressão de uma estranha camaradagem entre homens, que precisam assegurar, a todo instante, a própria expressão de uma força masculina.

 

Vem uma fresta de delicadeza quando os trabalhadores de um posto, no final do expediente, se reúnem em torno do som de um violão. A prática da escuta e da solicitação de canções torna-se um dos momentos possíveis de partilha. E a música, em todo o filme também, se transforma em textura fundamental para dar forma aos movimentos, inclusive quando se parte na moto com o desejo da vingança. A vez de matar, a vez de morrer lida com um universo em que o choque prevalece diante do farol aberto pela partilha de uma canção. E nesse mundo de ciclos de disputa, o contato entre os corpos lida sempre com a dificuldade dos encontros.

 

Se no curta anterior de Giovani, A Hora Azul, também havia poucas perspectivas para as relações, era possível vislumbrar um amparo no toque entre os corpos, como bem observava a Camila Vieira no Sobrecinema, ao destacar especialmente um instante de repouso em um colo, à beira do asfalto.

 

Aqui os encontros já se dirigem a um fim de tragicidade, anunciado logo nos primeiros minutos, quando ouvimos um tiro no fora-de-quadro. A lógica do intervalo volta a reverberar como chave de progressão da dramaturgia e da montagem. A vírgula se introduz para fazer caminhar duelos tornados simultâneos, ainda que temporalmente distantes. Montagem da pontuação. Quando o desenlace chega, são dois desenlaces coabitados que se reúnem. E a escritura declara a sua escolha em tornar plenamente visível apenas um deles.

 

O disparo final se dá ao olhar em apenas um desses corpos, mesmo porque há, na estrutura basilar do western, a necessidade de engajar o espectador em um percurso, o daquele que pretende fazer a justiça ao seu modo. Se essa jornada é mostrada em quebras e fraturas, é tanto pela intensificação de uma cena, quanto pelo que talvez seja um dos elementos mais importantes aqui: perceber o que se passa no meio. E é no meio que se inventaria esse universo do qual o filme tenta extrair um pedaço, para devolver aos sujeitos do olhar.

 

Ao final da projeção, algumas imagens de um outro curta visto nessa Mostra de Tiradentes parecem vir à mente, de um modo muito curioso. O filme de Giovani poderia ser pensado em uma interessante aproximação com o de Gustavo Vinagre, Chutes. Se o cotejamento mais calmo puder ficar para um futuro, valeria perceber, por ora, o quanto há, nos dois trabalhos, a vontade de olhar para certo tipo de sociabilidade entre homens. No curta de Vinagre, o futebol era, especialmente, o elemento catalisador das relações. E lá, um desfecho vinha como tensionador bastante emblemático, o choro de Sandra, ao descobrir que o bebê esperado seria mais um menino. Talvez seja uma boa sessão por se montar, quando esse lamento de Sandra é também uma possível reação após esse mergulho nas relações ainda mais violentas e tensas de A vez de matar, a vez de morrer.

 

Filme visto na 19ª Mostra de Cinema de Tiradentes.
Publicado pelo autor no Sobrecinema. 

 

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