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Boi Neon (2015), de Gabriel Mascaro

10/04/2016

Logo no primeiro diálogo de Boi Neon, o diretor Gabriel Mascaro explica a carga alegórica que domina o filme. Apaixonada por cavalos, a pequena Cacá (Alyne Santana) não consegue entender a defesa que o vaqueiro Iremar (Juliano Cazarré) faz da importância dos bovinos. Para ele, cavalo é só visual, enquanto do boi se tira carne, se faz sorvete ou gelatina. No universo imagético de Mascaro, os protagonistas do filme, que vivem da vaquejada, são como aqueles bois e, não importa o quanto desejem, nunca poderão viver só da estética.

 

Desde o longa anterior, o sensorial Ventos de Agosto, o diretor pernambucano vem buscando um desequilíbrio entre imagem e discurso. Em Boi Neon, essa quebra é ressaltada pela vida dupla de Iremar, vaqueiro que sonha virar estilista. Esse sonho é ilustrado por imagens subjetivas de modelos desfilando com biquínis desenhados por ele e com cabeças e patas de cavalos. É como se Iremar – bovino, cheio de utilidades – tentasse se forçar a entrar no mundo puramente estético dos equinos. A cena final, entre os bois, sublinha essa espécie de ascendência do protagonista e o destino que sua função tem.

 

Apesar de toda a carga da imagem, Boi Neon possui também um nível de compreensão mais simples. Enquanto Ventos de Agosto impressionava pelo trabalho com os sentidos, mas era pouco envolvente, o novo longa consegue captar a atenção com um senso de humor agressivo e sexual. Ou seja, a baixaria ataca no linguajar sertanejo dos vaqueiros e isso é hilário. Os bastidores, o curral da vaquejada, também chama a atenção por contrapor o glamour do mundo dos vaqueiros com a penúria dos funcionários e o sofrimento 
dos bois.

 

O trabalho sonoro minucioso também ajuda a cativar, dando espaço para que as personalidades profundamente humanas de Iremar e da motorista/matriarca Galega (Maeve Jinkings) cresçam. Iremar é ríspido e, vez por outra, trata mal Cacá ou Galega. Já a comandante do caminhão dos bois é “brôca”, mas luta para que a filha tenha um futuro melhor do que junto ao estrume bovino. Há ainda Zé (Carlos Pessoa), um atrapalhado funcionário que serve de alívio cômico e o vaidoso Júnior (Vinicius de Oliveira). São personagens que, sem afetações, desconstroem a visão de machão nordestino. 

 

Com Boi Neon, Gabriel Mascaro se sedimenta como um dos diretores com mais apuro visual do Brasil, ao mesmo tempo em que se firma como cronista de realidades de um interior nordestino de dureza e boniteza equivalentes.

 

Publicado pelo autor no Jornal O POVO.

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