• Elvio Franklin

Dossiê 19º Noia: O Cinema da Vontade

Elvio Franklin compôs o Júri da Crítica no 19º Noia - Festival do Audiovisual Universitário

Cena de "Rotina Familiar - Crônica Visual", de Léo Silva

Fazer cinema no Brasil nunca foi tarefa fácil. A História desta jovem arte no país mostra os altos e baixos que a acompanham desde sempre, em sincronia com o turbulento contexto político e social brasileiro. E neste 2020, que parece já durar uma década, a coisa não poderia ser diferente, e ouso dizer que degringolou ainda mais.


Num ano em que uma pandemia, como há muito não se via, assola violentamente a humanidade, dificultando o contato social e, desta forma, toda a cadeia do fazer audiovisual - desde a produção à distribuição e exibição - e, como se isso não bastasse, o país se encontra nas mãos de uma caquistocracia, um governo onde o retrocesso é lei e a cultura parece ser uma inimiga, a vida de quem tem na arte seu sustento e modo de ser acaba sendo ainda mais afetada.


Mas, ironicamente, é na arte que os brasileiros vêm se apoiando em tempos tão cruéis. Auxiliados pelas benesses da internet, músicos, fotógrafos, performers, e claro, cineastas, entre muitos outros artistas, têm trabalhado incessantemente para a manutenção da sanidade de muitas pessoas isoladas socialmente. Livros, podcasts, quadrinhos, streamings, têm se mostrado um respiro neste tempo de cárcere pandêmico em que vivemos, servindo, inclusive, como incentivo para que as pessoas fiquem em casa e desacelerem a contaminação.


No caso do cinema, uma parte importante da experiência precisou dar uma pausa. As salas de exibição, locais de emoções e contato social inevitável, precisaram ser fechadas. Mas por outro lado, além dos canais de streamings, que já estavam em visível ascensão mesmo antes da pandemia, uma novidade se mostrou muitíssimo bem vinda: várias mostras e festivais de cinema, de diferentes nichos e temáticas, alguns mais tradicionais, outros recém-criados, passaram a acontecer de forma online, não só com as exibições dos filmes de suas programações, como também palestras, mesas de debates, minicursos e oficinas. Tudo isso, antes restrito a um público que teria que se locomover até o local do evento, agora disponível para todos que tem acesso à internet, contribuindo um pouco com a democratização do consumo de tal conteúdo.


É neste contexto que a 19ª edição do NOIA – Festival do Audiovisual Universitário acontece em 2020. Com transmissões online entre os dias 30 de novembro e 04 de outubro, os 29 curtas-metragens (sendo 21 da Mostra Brasileira e 8 da Mostra Cearense), selecionados pela comissão de curadoria composta por Rúbia Mércia, Mariana Freitas e Irene Bandeira, puderam ser vistos por um amplo público em vários lugares diferentes do Brasil e do mundo, sem precisar se locomover até Fortaleza, cidade que tradicionalmente sedia o evento, que, como em suas edições anteriores, também contou com a Mostra de Bandas Cearenses, a Mostra de Fotografias Cearenses, além de seminários e oficinas.


É fundamental, nesse período que já dura anos em que o cinema brasileiro sofre com cortes e sansões que inviabilizam desde grandes produções até, principalmente, as pequenas e independentes que dependem quase que inteiramente de incentivo do poder público para acontecer, que uma boa parcela da população brasileira tenha conhecimento da potencialidade que a produção audiovisual universitária dispõe, ainda que com todos os empecilhos. São filmes que demonstram, em variadas formas e linguagens, a capacidade de manifestação de uma juventude, sedenta por mudanças, através do fazer cinematográfico. E isto está presente nos temas abordados em seus filmes, de forma patente e atual, mas também na maneira como os produzem, valorizando o coletivo e colocando muitas vezes o desejo de fazer acima de qualquer primor técnico tradicional, criando, assim, um cinema da vontade, da necessidade de colocar em tela anseios políticos, sociais e, por que não, pessoais.


É claro que romancear as agruras de uma produção é até mesmo irresponsável, e muitas das falhas técnicas dos filmes são retrato do baixo investimento que temos no setor cultural no país. Mas a simples existência destes filmes funciona como uma forma de protesto, de demonstrar que existimos, e que também poderíamos ser ainda mais e melhores se o devido valor fosse dado a quem está no início desta jornada profissional. Profissional, sim! Pois é necessário entender o cinema também como uma profissão, como fonte de renda e sustento de inúmeros profissionais que completam o setor a cada obra feita, desde o diretor e roteirista até o motorista e o eletricista de set, todos eles são artistas.


Vendo estes filmes podemos sentir cada uma dessas pessoas, trabalhando da melhor forma possível, tentando linguagens novas, experimentando, tocando em temas delicados e necessários, fazendo da arte uma revolução, muitas vezes sutil e delicada, outras, vivaz e dura, mas sempre fazendo, com vontade. Vontade de resistir, mas ainda mais do que isso, vontade de EXISTIR.