Dossiê 19º Noia: Múltiplas vozes ressoando

Eric Magda compôs o Júri da Crítica do 19º Noia - Festival do Audiovisual Universitário

Cena de "Pátria", de Lívia Costa e Sunny Maia

Ao longo de muitos anos o cinema se perpetuou, infelizmente, como uma arte elitista, branca, masculina e heterossexual. Seja não apenas pelas histórias contadas nas obras, mas pelas pessoas responsáveis por estas histórias. Quando se fala de cinema independente, por não ter obrigatoriamente o mesmo viés mercadológico do cinema hollywoodiano era de se esperar algo diferente disto. Mas não era bem assim e podemos ter uma pequena visão disso olhando o panorama de festivais brasileiros de cinema independente ao longo dos anos.


Era mais um espelho do elitismo, branquitude, machismo, dentro da sétima arte. Os filmes dirigidos por homens cis, héteros e brancos terminavam por representar uma maioria em festivais e mostras. Ou se não eram héteros, homens não heterossexuais tentando ao máximo não contar histórias sobre romances homossexuais. Aos poucos e lentamente isso começou a mudar e cada vez mais realizadores negros (em sua maioria cis) passaram a ganhar seu espaço, assim como realizadoras mulheres (também de maioria cis).


O Festival NOIA em 2020 teve uma Mostra Nacional particularmente única, podendo explorar as diversas vertentes de cinema sendo feitas. As histórias das quais pretendo falar não partem de um lugar branco ou masculino, pois por muitos anos e décadas o cinema foi só um local de homens brancos, cis e ricos. Dificilmente poderei dizer algo que não foi dito após por anos terem sido recriadas as mesmas histórias dentro deste cinema.


Começando pelo nosso cinema local, o filme cearense ‘Pátria’ tem em sua direção Lívia Costa e Sunny Maia e fala exatamente sobre o que o nome remete, nossa pátria. Através de imagens de arquivos, uma narração tanto captada e utilizando arquivos de som, é contada uma história sobre a pátria. História essa que reflete o quanto existem não-lugares em nossa pátria assim dita, a relação do nacionalismo tanto com o futebol quanto com a crescente onda fascista assolando a população a alguns anos.


A presença masculina ao longo da obra, cortando a imagem da presidente Dilma Rousseff e tendo em um de seus planos chave o sujeito masculino observando vorazmente a mulher são tapas muito bem dados em uma pátria patriarcal e machista. Se tivesse de escolher um plano desta obra seria exatamente o plano onde o torcedor está olhando vorazmente para a bunda de uma moça. Não pela ação em si, mas como o nosso olhar como audiência é direcionado de forma a olhar para o torcedor como um animal no zoológico, ressaltando o quão nojenta é sua atitude. Vindo da Vila das Artes, de Fortaleza, o curta se fortalece muito não apenas por ressaltar pontuais problemas com nossa pátria, mas pelo olhar particular das diretoras.


Agora levando para outro lado, vamos falar de cinema negro e também obras LGBTQIA+ com o curta ‘Meninos Rimam’, dirigido e roteirizado por Lucas Nunes. A obra foi realizada após uma campanha no catarse para contar a história de dois amigos de infância passando a descobrir mais sobre seus sentimentos um pelo outro. Os atores encarnam bem seus personagens, até mesmo a falta de jeito da adolescência e os medos quando nos apaixonamos.


Mesmo com certas falas muito irreais, o curta ainda consegue capturar bem quem assiste. O uso do olhar através da câmera como artifício contribui muito bem para o filme, além do seu enredo contar com uma história mais particular. Questões de etnia, masculinidade, não heterossexualidade permeiam a obra e a fazem um prato cheio de incríveis temperos surpreendentes. Através de sua imagem e sua história, o filme convida a viver um sonho, acima de tudo e a beleza está exatamente nisso. Não existe um final feliz quando se é um adolescente, mas é justo dar um começo de jornada otimista especialmente quando se trata de contar história sobre a juventude preta e LGBTQIA+, com direito a usar música como forma de expressão.


Seria possível juntar cinema negro, queer e também ficção científica num festival universitário? Porque honestamente o meu maior desejo é exatamente por mais obras capazes de explorar a ficção científica, assim como a fantasia e o horror de forma não hétero, cis e branca. Bem, o pacote veio muito bem recheado com ‘Cão Maior’ dirigido por Felipe Alves, que conta uma história de dois jovens - Icaro e João - durante suas tediosas férias enquanto uma amizade e sentimentos românticos surgem entre eles. No meio desse crescente romance e das trocas tímidas de olhares, a presença de uma estrela no céu tornando as noites quentes e vermelhas.


As diferentes formas como o filme propõe sua própria história e mesmo assim, de uma maneira tão simples. Os planos são tão cuidadosamente pensados e executados, com uma perfeita sintonia entre os atores em tela e os diálogos. Ainda há um certo flerte com a poesia, mesmo de forma indireta e imagética, combinando com a tonalidade vermelha referente à importante estrela do filme.


Por mais filmes contando histórias sobre jovens gays, sem ser sobre se descobrir ou se assumir, pois este termina sendo um grande ponto positivo da obra. Nossos protagonistas, interpretados por Igor Ariel Melo e Richarde, só se conhecem e se apaixonam e isso não é tratado em nenhum ponto do filme com um ideia de outridade e aceitação. Meninos se apaixonam por outros meninos, não há nada demais sobre isso.


Finalizando não com o menos importante, se torna necessário ressaltar a importância de ‘Perifericu’, não apenas dentro deste festival mas como uma obra em si. O fazer este curta, dirigido por Vita Pereira, Nay Mendl, Rosa Caldeira e Stheffany Fernanda, é um ato incrivelmente político e capaz de ecoar por muitos locais e por muito tempo. Vivências de mulheres negras e de pessoas trans são histórias que merecem ser contadas e merecidamente são contadas por pessoas capazes de as darem o devido olhar e isso é feito de forma magnífica na obra.


O 19º Festival Noia teve uma Mostra Nacional que se materializa, num ano tão cheio de tragédias e injúrias, como um suspiro de ar fresco e novas possibilidades para um futuro. Viva ao cinema feito por mulheres! Viva ao cinema negro! Viva ao cinema trans inclusivo!


PARCEIROS

Ativo 1.png
Ativo 2.png
Ativo 3.png

© 2020 Aceccine - Associação Cearense de Críticos de Cinema