• Renan Andrade

1º Sinistro: O cinema fantástico de qualidade

Renan Andrade compôs o Júri da Crítica com PH Santos e Sara B. Jales. O júri considerou a Mostra Norte e Nordeste da seleção para premiação. Confira o filme premiado aqui

O I Sinistro - Festival Internacional de Cinema Fantástico do Ceará foi realizado entre os dias 9 e 13 de agosto de 2022, no cineteatro São Luiz, em Fortaleza, Ceará. Dividido entre categorias que abrangem a divisão entre cinema nacional e internacional, o Festival mostrou uma boa escolha de curadoria dos filmes selecionados e exibidos, satisfazendo o público e o júri. Porém, é necessário apontar que as divisões de categorias precisam ser reavaliadas para as edições seguintes. Dentre elas, a subdivisão entre produções de origem Norte/Nordeste separadas da divisão brasileira.

Compreendo que essa divisão se deve para dar mais visibilidade às produções locais, mas a consequência mais grave disso é a produção de um distanciamento do que é produzido em duas grandes regiões brasileiras para outras. Não é justificável separar produções de um mesmo país simplesmente por regiões apenas pela localidade dela e sem nenhum critério claro que demarcasse essa divisão. Vale salientar que os três melhores curta metragens nacionais, na avaliação deste crítico, estavam na categoria Norte/Nordeste – Os Últimos Românticos do Mundo (PE); Quando Chegar a Noite, Pise Devagar (PE); Sideral (RN) – e estes não puderam ser premiados a nível nacional.

Entendo que ao invés de ter uma separação por região, fosse criado uma categoria em especial, com filmes cearenses, uma vez que o festival é uma investida local. Também seria interessante pensar em uma categoria para filmes estudantis ou “amadores”, uma categoria que privilegiasse, também, animações, uma vez que este estilo possui uma grande potência para o gênero em questão.

Por fim, antes de falar de alguns filmes que escolhi, quero deixar clara a minha felicidade de ver a qualidade do cinema de gênero brasileiro. Não apenas isso, mas perceber que filmes como os pernambucanos parecem alimentar uma assinatura estética, não apenas com as antigas marcas regionais, mas sim, com estética cinematográfica como o uso de mais cores em sua fotografia, o apelo às mecânicas das câmeras como o elemento zoom para direcionar e dar atenção a um aspecto da cena, assim como o uso de temáticas mais universalizantes que abraçam outros temas de interesses mais político-regionais. Algumas obras – que são primeiros ou segundos trabalhos dos realizadores – parecem já vir com esse olhar que podem, em um futuro muito próximo, propor uma estética clara para o cinema local e um estilo cinematográfico de um cinema pernambucano que explora elementos próprios da cultura popular nas produções imagéticas de suas obras. Isso é motivo de atenção e de boa expectativa. Já quanto as produções cearenses, acredito que, a partir do que vi, das investidas de algumas produções, vi que ainda estamos constituindo possibilidades estéticas que trazem nossa voz à tona. Ainda me incomoda o excesso de discurso expositivo sobre política e o pouco trabalho com a imagem que tragam esse discurso de uma forma mais poética, estética ou mesmo contemplativa. Porém, acredito que seja algo natural e que, com o tempo, poderemos formar nossa própria forma de fazer cinema, assim como me parece que acontece com as obras pernambucanas.

Diante dessas explanações, falarei de alguns filmes:

  1. OS ULTIMOS ROMANTICOS DO MUNDO (PE)

Filme pernambucano de Henrique Arruda que para falar do apocalipse não poupa imaginação. O fim do mundo é rosa, é o fim de um sonho, mas não a queda para um abismo. É cheio de amor e memórias, uma experiência e uma viagem pelas estradas que, aos poucos chegam aos fins, mas que não terminam nunca. Se trata de uma obra que para falar de laços afetivos usa a estética fantástica para cobrir o mundo com um nevoeiro rosa que dá fim à vida, mas não como a assustadora morte, mas como o fechar das cortinas de um espetáculo. A poesia do autor nos mostra como a morte, na verdade é uma contemplação das possibilidades da vida, ou a produção das melhores memórias afetivas.


2. TERRA SANTA, TERRA MALDITA (MA)

Essa animação me rendeu uma viagem a minha infância. Sem poupar inspiração nas clássicas histórias lendárias que se conta nas calçadas de casas ou nas varandas de sítios e fazendas ou casas do sertão, o filme nos leva a uma história de bandidagem e feitiçaria, com elementos próprios da nossa região. A construção da voz da feiticeira que narra a história é um elemento fundamental nesta obra, apostando na clássica bruxa infantil.


3. SIDERAL (RN)

Com certeza, este é um dos melhores filmes de todo o festival. Natal, a cidade satélite do Brasil, é também a cidade que possui uma estação de lançamento de foguetes brasileiros para o espaço. No primeiro lançamento, uma mulher que trabalha na estação resolve se esconder e fugir para o espaço sideral, deixando para traz família, marido e filhos. Essa narrativa constrói um enredo que possibilita a produção de um longa.


4. FIO DE ARIADNE (CE)

Diferente dos outros filmes do diretor Mozart Freire, este filme parece ser mais otimista. Uma pista para seu olhar quanto ao espírito do tempo e quanto a noção de resiliência. A trama do filme por si já causa estranhamento aos mais conservadores: uma trans grávida. A partir disso, começamos a entender que há transtornos psicológicos que despertam a partir de chamadas telefônicas que não ficam muito claras. O diretor explora os sentidos a partir da transformação do corpo de uma pessoa que já tem o corpo transformado. A partir da aflição psíquica da personagem, somos conduzidos a sentir a náusea que ela sente também com elementos do Body Horror e da magia. Porém, o filme finaliza de maneira pouco criativa, o que nos faz perder um pouco dos laços que o diretor pretendia formar.

 

Renan Andrade é formado em jornalismo, mestre e doutorando em psicologia política, o cinema atravessa sua vida em várias formas. Desde a infância, até as brincadeiras de adolescente produzindo filmes caseiros e se tornando algo profissional, sendo objeto de sua vida acadêmica, seu olhar apaixonado, seu escape e seu encontro com a realidade.