• Daniel Araújo

007 - Sem Tempo para Morrer: na esteira do ser-espião

Publicado pelo Autor no site Um Filme ou Dois


Em verdade, o filme tem esse tom celebrativo no encerramento da era Daniel Craig na série, e tudo bem. Porque quando olhamos o retrospecto de todas as obras da franquia, de 1962 a 2021, a ideia de linearidade e retroalimentação temática reside como uma fórmula perene. Há quase sessenta anos, portanto, o que percebemos a cada novo título é essa alternância entre fases. Chegando ao 25º longa, a produção aloca tudo isso e atesta provas discretas, mas latentes, para um novo começo.


É sobre isso que Sem Tempo para Morrer (2021) trata ao fim das contas. Desse fluxo entre o que vimos ontem, a abertura de créditos alusiva a Dr. No (1962) fala disso; e ao que podemos intuir para o amanhã a ser visto; a inserção das novas agentes e a retirada de determinados traços de personalidade do protagonista, por exemplo, também apontam essa mudança de prisma. Na complexa linha que divide produtores ou espectadores mais apegados a esse corpus do passado, essa segunda abordagem causa desconforto.


Como assim 007 como uma mulher negra? Desse pensamento, que parte do board da MGM já entoa nos bastidores, é de onde emerge esse temor desfundamentado. A questão aqui sequer deveria ser essa. No nível do filme, para além do que a representatividade em si aporta, o cerne dessa discussão deveria estar mais alinhada com a manutenção do cuidado aos detalhes que essas estórias futuras venham a ter do que tópicos de superfície como esse.


Ver Nomi (Lashana Lynch) tomando de fato das armas, dos veículos, dos gadgets e toda a gama de atributos referenciais que o personagem emula seria incrível? Sim, definitivamente. Mas talvez os filmes a serem feitos a partir deste ponto precisarão de um pouco mais (ou quem sabe até um pouco menos) de tudo isso para funcionarem de fato e impulsionarem uma fagulha mínima que leve essas narrativas uma casa adiante daquilo o que a experiência do gênero indica.


Digo isso porque a história tem sido clara com trabalhos que apontam esse suposto espírito representativo. “O Escândalo” (2019) e “Capitã Marvel” (2019), guardadas as devidas proporções e especificidades enquanto projetos de subgêneros distintos, exemplificam bem esse modelo de um cinema que se pensa disruptivo por colocar em cena personagens femininas em narrativas que lidam com discussões caras ao feminismo de modo geral, mas que esbarram em índices visivelmente contrastantes à ideologia, como a exposição da condição das personagens femininas e a falta de profundidade na construção dessas figuras em si.


Isto posto, retornamos ao filme de Cari Joji Fukunaga. Queríamos ter visto mais de “True Detective” e menos recortes referenciais da mitologia do próprio Bond em maior medida? Sim. Se esse caminho tivesse sido tomado, de fato teríamos visto um trabalho realmente diferente talvez de tudo o que a série cinematográfica já tenha apresentado. Mas isso não ocorreu. O tamanho da estrutura que essas produções, grandes blockbusters internacionais financiados por megaestúdios, interferem diretamente na adoção de rotas contra-hegemônicas.


Ou seja, partimos da reflexão de pioneiros como a atriz Lauren Bacall e Arthur Koestler para repensarmos a dinâmica entre a indústria e seu meio. Mas como estabelecer novos padrões de relevância, como sugeria Koestler, nessa lógica atual em que a indústria do cinema mainstream acaba vítima e predadora dos seus próprios termos? Esse parece ser um dos grandes impasses que colocam a originalidade da figura do artista/autor em rota de colisão com as intenções do mercado cinematográfico internacional como o conhecemos hoje.


Citar Missão Impossível faz sentido aqui porque a série mostrou com Efeito Fallout (2018) que esse movimento revitalizador pode ser executado sem que o sopro revitalizador do projeto tenha de ser negligenciado em função da veia viciada do filme arrasa quarteirão. Nisso, Cari Joji parece ficar um pouco abaixo daquilo que o filme de ação do subgênero espionagem evoca. As locações distintas, as cenas de ação, as tramas de vingança e a banda sonora estão presentes nos 163 minutos de Sem Tempo para Morrer. Mas ainda assim algo parece faltar.


Assim como Spectre (2015), há uma regularidade saudável no longa de Cary que talvez seja essa espécie de freio de mão que impede que a obra encubra, por exemplo, a própria impressão do fluxo com que os eventos se sucedem. E de fato, ao contrário do que o título sugere, não há esse senso de emergência que poderia estar naturalizado no encadeamento de cada nova sequência, como por exemplo, vemos em Skyfall (2012). Essa subdivisão, no filme atual, é evidente e materializa bem esse clima de fim de ciclo.


Essa ideia do fim, alinhada com o conceito da morte garantem essa reflexão sobre a natureza última desse Bond que foi introduzido, esculpido, materializado e sedimentado sob o signo da perda e da destruição. “Tudo o que você toca parece estar destinado a morrer, James”, lembra Blofeld em Spectre (2015). Esse parece um bom mote na amarra entre o herói e o antagonista na balança das forças que os mantém em lados opostos da sala. Considerar isso foi um gesto de coragem que Joji e sua equipe de roteirista assumiram do início ao fim da obra.


Tudo poderia ter sido concluído em um aspecto minimalista? Sim, sempre pode. Mas o ato da explosão, por exemplo, pode reverenciar muto bem o conceito desse rompimento ou transição para um novo momento o qual a franquia se abre. Saber se a série abraçará adiante essa dinâmica destrutiva e construtiva para reavaliar seus próprios valores será um dos grandes pontos para a franquia de agora em diante. A princípio pode parecer algo óbvio, mas, para retomar Koestler, Nomi certamente é (ou pode vir a ser) a personificação desse novo conjunto referencial que estabelecerá novas regras para esse jogo eterno que rodeia o personagem há quase 60 anos.