• Daniel Araújo

Última Cidade (2022): contradições de uma metrópole do futuro

Crítica publicada por Daniel Araújo no site Um Filme ou Dois

A ideia da distopia presente em "Última Cidade" congrega uma frutífera aura de um filme que parte do experimentalismo para pontuar questões que a narrativa ficcional contemporânea pode estabelecer no contexto em que o cinema atual se insere.


Por isso que ir para essa estória sem sequer termos lido sua sinopse agrega na percepção que temos da sua totalidade. A princípio, toda a trama que Victor Furtado estabelece parece ir se diluindo cada vez mais até que nossa busca pela compreensão de um sentido mais palpável também se desmaterialize completamente.


O interessante é que, de certo modo, o filme não se conduz para isso. Pelo contrário, há um ponto da sua estrutura que parece determinar muito bem essa dobra dessa concepção menos "etérea", digamos, e se firme concretamente por meio do encontro que João (esse Dom Quixote cearense e pós moderno) e Tahiel (um Sancho Pança partefFortalezense, parte Iberoamericanizado), estabelecem entre si.


A sua segunda metade parte disso. Desse encontro com os desconhecidos que, não sendo entendidos como estranhos, colocam na cena suas presenças para que possamos também entender um pouco mais da dimensão contraditória dessas metrópoles do futuro.


Espaços que seguem remoldando-se por meio das utopias deixadas para trás e das crenças igualmente mantidas por esses sobreviventes. Falas essas que se texturizam nos relatos dos moradores de um antigo prédio em ruínas. São quase metáforas ou alegorias em forma de pessoas no convite à nossa reflexão.


Nisso, impossível não remetermos à própria construção de um cinema como o de Pedro Costa. De uma arte que irrompe com um ideal imagético unicamente encerrado no campo estético ou da subjetividade discursiva. De uma dinâmica de aproximação com esse outro que se fantasmagoriza em meio às pólis em um passado, de certo modo, suspenso no tempo. Victor meio que une tudo isso para deixar seus personagens assumirem a narrativa.


O mais curioso é que sentimos a quebra, vemos ela ocorrer mas em nenhum momento a entendemos como uma falha. Porque assim como o olhar que guia o visionário português, aqui a dobra dessas falas nos vemos como um respiro e refúgio àquilo o que podemos ler como um exercício de dessubjetivação narratológico.


Quando os relatos cessam, retornamos à realidade dos nossos heróis. João enfim pode ir para o confronto final que definirá o alcance ou não da sua trilha de vingança. Chegado o momento, não há escuridão mais (ainda que toda treva esteja engendrada na política das macroestruturas "iluminadas" desse monstro que é o capitalismo).


Mas quem vence e quem se faz vencido? Não parece haver resposta concreta para essa questão. A mancha de sangue que transpassa a transparência de um sistema que não vemos, mas que nos coopta incessantemente dá um indício de que resistir, de alguma forma, é preciso.


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Daniel Araújo é jornalista, crítico de cinema, especialista em Cinema e Audiovisual e autor do site Um Filme ou Dois.